A entrevista com a psicóloga Ana Jacó publicada neste site faz parte do Jornal do Psicólogo, edição 96. No jornal, Ana Jacó conta a sua trajetória. Aqui ela apresenta o seu posicionamento diante de questões relativas à Psicologia.
Ana Maria Jacó-Vilela é graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestre em Psicologia pela Fundação Getúlio Vargas/RJ (FGV-RJ) e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutora em História e Historiografia da Psicologia na Universidade Autônoma de Barcelona. Atua como professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e no curso de graduação em Psicologia. Coordena o Clio-Psyché, Programa de Estudos e Pesquisas em História da Psicologia com enfoque em história da Psicologia no Brasil. É pesquisadora do CNPq, Cientista do Nosso Estado pela Faperj e Procientista da UERJ. Participa dos GTs de História da Psicologia da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP) e da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP), sendo coordenadora deste para o biênio 2009-2011. Foi Presidente da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) em 2006 e 2007 e vice-presidente de sua Regional Rio (2008-2009). Faz parte da Comissão Científica de diversos periódicos e é parecerista para agências de fomento nacionais e estaduais.
Jornal do Psicólogo (JP): Qual o recorte possível da história da Psicologia no Brasil, levando-se em conta aspectos epistemológicos, políticos e éticos? Ana Jacó (AJ): Um recorte possível seria pelas grandes articulações do saber psicológico. Primeiramente, com a teologia, no Brasil colônia e império; ainda no Brasil império e no começo da República, com o campo médico e com o higienismo incipiente; após 1930, com o campo educacional e com novas formas de higiene, expandindo-se para o campo do trabalho, do direito e da clínica. A partir de 1962, um campo legal que irá buscar seu reconhecimento social principalmente a partir dos anos de 1980.
JP: Qual sua percepção sobre a história da Psicologia no País enquanto ciência? AJ: A historiografia da Psicologia no Brasil surge na década de 1940. Os principais trabalhos publicados foram reunidos em livro organizado por Mitsuko Antunes, História da Psicologia no Brasil: primeiros ensaios, editado em 2004 em parceria da EdUERJ com o Conselho Federal de Psicologia (CFP). Seus autores não são historiadores da Psicologia. São, às vezes, memorialistas e arquivistas, atrás de documentos oficiais. Principalmente, trata-se de nomes de relevo na Psicologia brasileira que, nesta qualidade, são convidados a escrever sobre a história dessa disciplina tão recente no País. Seus trabalhos sofrem claramente a influência dessas convocações. O estudo da história da Psicologia no Brasil desperta hoje em dia grande interesse e encontramos um bom número de investigadores da área. Este, me parece, é o ponto-chave que vai diferenciar o atual modelo historiográfico do anterior. Parte-se, aqui, não de investigadores isolados que, por contingências específicas, principalmente seu prestígio no campo, são chamados a fazer uma “história”. Agora, funcionamos principalmente na perspectiva de pesquisadores da área, pessoas que se dedicam às lides do fazer historiográfico, que se entendem exercendo o ofício de historiador — com todas as dificuldades e ambiguidades que este fazer acarreta para os não formados em História. Assim, por exemplo, determinados personagens tem sido resgatados, não mais numa perspectiva mítica de “grandes homens e seus feitos”, mas pela avaliação do que trouxeram de significativo, em termos de produção teórica ou de proposição de formas de atuação em vista de seu momento histórico, suas condições institucionais etc. Neste processo, pode-se às vezes descobrir que houve um esquecimento e um abandono de importantes contribuições pela permanência do viés colonizado e subalterno, que considera “de melhor qualidade” o que vem de fora. Este é o caso, sem dúvida, das novas interpretações sobre Manoel Bomfim, como as de Antunes (1999). Tais narrativas, portanto, raramente são anacrônicas, internalistas, lineares ou contínuas. Costumam ser externalistas ou, mesmo, construcionistas. Mais disruptivas e descontinuistas que lineares. São contextualizadas e, em sua maioria, fazem uma afirmação da descontinuidade na qual, ao mesmo tempo, se mantém presentes elementos do passado. Uma marca, contudo, parece estar se tornando muito forte – uma perspectiva construcionista que enfatiza a linguagem e a discursividade. Embora poucos se declarem foucaultianos no campo da historiografia, o pensamento de Foucault certamente está subjacente a boa parte da produção atual. A constituição de um determinado campo disciplinar é visível, sem dúvida, por sua presença institucional. A história da Psicologia no Brasil conquista este status por meio, principalmente, do Grupo de Trabalho em História da Psicologia da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP). Constituído em 1996, no VI Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP, com incentivo e participação do historiador da Psicologia Josef Brozek[1] (Campos, 1998, p. 19), o GT, além de ser quase “fixo”,[2] vem contando com um grupo sempre crescente de pesquisadores e é considerado o interlocutor das mais diversas instituições quando o tema é história da Psicologia[3]. O cerne dos trabalhos desse grupo parece ser o propósito de estabelecer o caráter local das contribuições teórico-práticas do desenvolvimento do campo psicológico no País. Busca-se compreender como o processo de constituição dos saberes e fazeres na Psicologia brasileira se apropria de conceitos, ferramentas, métodos, de outras origens, ou os cria no País. Subentende-se que aqueles não terão uma exata reprodutibilidade, pois irão se deparar com outros modos de pensar, com outros modos de vida, que gerarão, em consequência, um novo resultado. Nossa atual historiografia procura revelar, portanto, o quanto a produção do conhecimento psicológico se torna local, específica, relacionada a determinadas condições que são próprias de nosso País. Para além de nosso Grupo de Trabalho em História da Psicologia, há hoje uma rica historiografia sobre diferentes temas. Especificamente sobre a criança e/ou a infância, que conheço melhor, temos a história da assistência à criança pobre, abandonada, desvalida; a história da apropriação da criança pelo Estado e pelo sistema jurídico; a história da distinção entre tipos de criança, a “normal”, a simplesmente “necessitada de apoio” e aquela que pode, enfim, ser “perigosa” (Rizzini, 2008, 2009; Arantes, 1991, 1998, 1999). Não se trata, claro, de uma historiografia desenvolvida por diletantismo, para demonstração de erudição. Ela busca, antes de mais nada, entender um problema do presente — o “menino de rua”, a criança que habita os espaços públicos das grandes cidades brasileiras — para melhor propor/tentar soluções para ele. Schwarcz (1992), crítico literário reputado, analisando a assimilação do ideário liberal no Brasil do século XIX, mostra como os resultados são bem diferentes daqueles encontrados no pensamento europeu original. Para ele, isto decorre porque tais ideias estão fora do lugar, são ideias constituídas em um determinado solo e que, em sua passagem para outro espaço, são “traduzidas”, adquirindo novo sentido, mais pertinente a essa nova realidade. Não se trata, pois, de uma “importação”, mas de uma apropriação antropofágica. Detendo-se no hábito brasileiro de importar ideias surgidas em outras realidades, Schwarcz sugere que a funcionalidade destas se transforma por estarem fora do lugar, ideias sem correspondência com nossas situações econômicas, políticas, culturais. Assim, se a ciência se desenvolve em função de determinadas condições — socioculturais, políticas, econômicas etc. —, assim também ocorre com sua historiografia. No caso específico da Psicologia no Brasil, se encontramos em um primeiro momento uma historiografia totalizante e centrada na crença da superioridade da produção dos países centrais, tal perspectiva aos poucos se torna irrelevante e a historiografia absorve temas específicos e espaços determinados. Neste ponto, é importante ressaltar a posição da Psicologia conforme postulada pela ABRAPSO e o incentivo do CFP. A historiografia da Psicologia, dentro do contexto dessas iniciativas, deixa de considerar o País somente como consumidor e reprodutor de teorias e práticas. Esta forma de análise volta-se para uma postura antropofágica, mesmo sem clareza dessa dobra, em que se compreende que no País ocorre a apropriação de novas teorias e práticas e que aqui se produzem novos saberes, novas teorias e práticas e – por que não? – novas historiografias.
JP: Historicamente, qual a relação da ciência, Psicologia, com a profissão? AJ: Parte deste questionamento está respondido na pergunta anterior, pois não são assuntos que podem ser tratados de forma desvinculada. Contudo, acrescento que a Psicologia se desenvolve no Brasil inicialmente como prática científica — por meio dos testes, de seu estudo, da tentativa de padronagem de seu resultado. Só a partir dos anos 1930-1940, com o surgimento das cátedras de Psicologia, dedicadas exclusivamente à transmissão dos conhecimentos científicos — com quase nenhuma produção científica, diga-se de passagem — é que se produz esta distinção entre ciência, aquilo que é feito na academia, e o exercício profissional. Isto leva a uma dicotomia tão grande, cria-se um abismo tão profundo, que é um dos temas do grande movimento de renovação dos currículos dos cursos de Psicologia nos anos de 1970-1980: aproximar teoria e prática. Mas este movimento se inseriu em um mais amplo, de questionamento do que era ciência, do paradigma das ciências naturais, da necessidade da psicologia “ser” — ou tentar ser — uma ciência natural. Hoje em dia, me parece, se perdeu este sentido de época e se naturalizou a questão. Assim, acho que corremos o risco de voltar à dicotomia antiga com uma valorização oposta: muito valor à prática, à realização, ao “como fazer” — como eu faço —, perdendo-se o sentido de práxis, que era a proposta anterior, resultando em pouco ou nenhum valor à teorização, à ciência, esta considerada ainda no modelo dos anos 1940-1950 — alguma coisa de abstrato, de fora da realidade. “Prática” virou uma palavra da moda, mas raramente é pensada como práxis. É uma técnica como outra qualquer que, a meu ver, dá resultado, portanto é boa. E é “a meu ver” porque também torna-se cada vez mais raro o interesse por um projeto coletivo.
JP: Como você vê a Psicologia feita no Brasil de hoje? Qual a qualidade do ensino e da formação em Psicologia? AJ: Com muito cuidado, visto que a expansão do ensino nem sempre propiciou melhor qualidade da formação, tendo muitas vezes contribuído para diminuir seu nível. Isto não é específico da Psicologia, ocorreu em todas as áreas do conhecimento e é um fenômeno universal. Pensa-se muitas vezes que o simples acesso ao ensino superior resolve diversas questões sociais. Entretanto, mesmo países vizinhos ao Brasil mostram que não é o acesso, mas a possibilidade de dedicação e o estudo contínuo e exigente que permitem a transformação de modos de vida e de qualidade de atuação profissional. Para mim é assustador psicólogos de camadas médias da população irem trabalhar no SUS, no SUAS — ou no sistema judiciário, ou em escolas — sem terem a menor noção do modo de funcionamento familiar, comunitário, no universo das pessoas que irão atender, sem conhecer políticas públicas, interessado quase que exclusivamente em seu papel de “técnico” (planejamento, gestão, avaliação, não fazem parte do cotidiano profissional dos psicólogos). Igualmente preocupantes são os relatos assustados que ouvimos sobre a quantidade de evangélicos que estaríamos formando para serem “psicólogos evangélicos”, com atuação dogmática dentro de suas denominações específicas – esta é uma situação que temos que analisar com muito cuidado porque sabemos que a nossa Psicologia nas escolas normais (anos de 1940 a 1970, talvez) era eminentemente uma “Psicologia católica”, a Igreja Católica se esforçou nesta direção exatamente para enfrentar o “materialismo” da nova Psicologia que chegava. A ABEP deveria construir novos dispositivos para estar mais próxima das instituições formadoras, voltar a aproveitar o espaço da BVS-psi para trocas acadêmicas, incentivar a produção de livros didáticos de boa qualidade, enfim, há um campo vasto para a ABEP investir.
JP: A Psicologia é hoje uma ciência e uma profissão alicerçada na promoção dos Direitos Humanos. Quais os desafios e avanços colocados para a Psicologia e os Psicólogos brasileiros? AJ: Não concordo com a premissa, que, aliás, se não for explicitada, transmite a ideia de que se tratam dos direitos naturais do ser humano universal presentes nas declarações do século XVIII, pois somente em alguns poucos casos, como da criança (vide o ECA) ou do louco, encontramos maior especificação de que direitos e de que humanos estamos falando. Penso que o Sistema Conselhos tem feito muito para que os psicólogos se dediquem, se interessem ou, pelo menos, não transgridam os Direitos Humanos, nesta generalidade aqui mencionada. Todavia, é quase cotidiano os relatos de casos de psicólogos atuando em total desrespeito a tais direitos. Ou seja, acho que o grande desafio é colocar os DH verdadeiramente na pauta dos psicólogos. Para isto, a ABEP deve funcionar/atuar cada vez mais como interlocutora das IES, encontrando novas formas de presença onde vê que a resistência (ou a indiferença) é grande.
JP: A Psicologia, enquanto profissão, sobreviverá numa sociedade cada vez mais tecnicista, tecnológica e imediatista? AJ: Por que não? Ela também pode se transformar, acompanhando a sociedade. Se vamos gostar das transformações, aí são outros quinhentos... Há um excelente texto de Nikolas Rose, “A Psicologia como Ciência Social”, cuja tradução foi publicada pela revista Psicologia & Sociedade de dezembro de 2008, que aponta o quanto o século XX foi o “século da Psicologia”, como a sociedade se tornou psicologizada. E, falando do surgimento da neurociência, Rose diz que, para ter sucesso, ela também precisa se tornar “uma ciência social”, tal como a Psicologia o foi no século XX. Nós já temos muitas técnicas para trabalhar com o imediatismo — a Psicanálise, por exemplo, procurada por noventa em nove de cada cem candidatos à terapia nos anos de 1960/1980, agora perde mercado para terapias mais “rápidas”; temos alternativas tecnológicas, não sei como anda a discussão sobre atendimento pela internet, mas já havia este ponto de pauta no Sistema Conselhos dez anos atrás, quando fui conselheira; tecnicismo, a avaliação psicológica está voltando a toda... Enfim, onde está a dificuldade para a Psicologia se adaptar?
JP: Qual a identidade do Psicólogo brasileiro hoje? AJ: Existem diversas identidades. Creio que não há mais aquele ideal hegemônico, advindo do modelo médico, do consultório particular. Embora possam entrar no curso com esta perspectiva, rapidamente os estudantes percebem o quanto ela é para poucos. Vejo o psicólogo hoje principalmente como um profissional assalariado que almeja um cargo público — para o qual lhe falta, em muitos casos, informação sobre o que irá encontrar e base teórico-técnica que lhe ofereça suporte (ver resposta anteriores). A clínica privada permanece, como dito, como sonho para poucos. O compromisso social não é uma bandeira de luta, em muitos casos é somente a condição de empregabilidade. Com a expansão do ensino e com a diversidade de áreas, abordagens, entendimentos sobre a Psicologia — muitas vezes sem o necessário rigor avaliativo —, enfim, com os próprios movimentos fragmentários dessa fase da modernidade que vivemos, torna-se cada vez mais difícil pensar em uma única identidade profissional.
[1] Josef Brozek (1913-2004), um dos principais nomes da historiografia moderna da psicologia, destaca-se principalmente por seu esforço em estimular a produção em historiografia dos diferentes países. [2] Na ANPEPP não há GTs previamente estabelecidos. A cada dois anos, por ocasião de seu Simpósio, os interessados em um GT devem apresentar sua proposta, na qual se inclui a história de trocas entre os pesquisadores do grupo. O GT de História vem permanecendo com os mesmos proponentes iniciais e com agregados a cada ano desde sua primeira aparição institucional, em 1996. [3] Por exemplo: quando o Conselho Federal de Psicologia criou o projeto Memória da Psicologia em 1998, com o objetivo de resgatar a história da Psicologia no Brasil, recorreu ao GT de História da ANPEPP como consultor de suas diferentes atividades.