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Políticas de assistência social para população travesti e trans são discutidas em evento do CRP-MG
 
Postado em 20/4/2017

O Psicologia em Foco, ciclo de debates do Conselho Regional de Psicologia - Minas Gerais (CRP-MG), desta quarta-feira, 19/4, discutiu “Políticas socioassistenciais para a população travesti e trans”. Assista aqui a íntegra do evento.

Participaram da mesa: Sônia Sissy Kelly, militante pelos direitos da população trans em situação de rua em Belo Horizonte e membro do Fórum da População em Situação de Rua de Belo Horizonte;  Olga Ribeiro, analista de políticas públicas da Prefeitura de Belo Horizonte; e  Leonardo Tolentino, psicólogo e integrante da Coordenadoria Municipal de Direitos da População de LGBT. O debate foi mediado pela conselheira e coordenadora da Comissão de Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual do CRP-MG, Dalcira Ferrão.

Dalcira Ferrão explicou que a realização da mesa é fruto das articulações realizadas pela Comissão no mês de janeiro, em função do Dia Nacional de Visibilidade Travesti e Trans.

Assistência Social – A assistente social Olga Ribeiro iniciou o debate falando do seu trabalho como supervisora no atendimento a pessoas em situação de rua e o funcionamento de políticas socioassistenciais. “A política de assistência social faz parte do tripé da seguridade social, junto com a saúde e a previdência. Ao contrário da política de saúde, a política de assistência social não é universal, pois ela é voltada somente para pessoas que necessitam dela, então, existe uma série de perguntas de como e para quem ela é voltada, quais são os critérios e como ter acesso a essa política. Então, ela é regulamentada em 1994 e começa a se estruturar em 2004, com a criação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), normalizando os serviços, benefícios e projetos de forma integrada”, contextualizou Olga.

A assistente social problematizou a forma como a política de assistência social é feita para a população travesti e trans. “A partir e 2015, nós começamos a discutir sobre identidade de gênero, orientação sexual e consequentemente a população trans e travesti em situação de rua, isso devido a provocação dos movimentos sociais e da própria Sissy Kelly,  que sempre pautou esse tema nos encontros. "Ainda existem dificuldades de ampliar essas questões para outros serviços da política de assistência, de modo a garantir a proteção social integral de travestis e mulheres trans, não somente no que fiz respeito à trajetória de rua", afirmou Olga.

Violência e Invisibilidade – O psicólogo Leonardo Tolentino exibiu um vídeo que mostra a tortura da travesti Dandara, ocorrido no Ceará e, propôs a reflexão sobre esse acontecimento a partir do pensamento da filósofa Judith Butler. Em um de seus livros a autora questiona: “Quais as vidas são choradas e quais são lamentadas?”.

Leonardo também discutiu as dificuldades das políticas de assistência reconhecerem as subjetividades de travestis e trans. “Alguns trabalhadores da assistência social relatam que muitas travestis e trans preferem ficar rua a ir para uma unidade de acolhimento institucional, pois nesse acolhimento elas não são reconhecidas por sua identidade de gênero, ou seja, vão ter que se despir do que são”, relatou Leonardo.

A militante transexual Sissy Kelly apresentou uma reportagem da revista Transite, do curso de Comunicação Social da UFMG, que discute a situação de mulheres trans e travestis que vivem em situação de rua em Belo Horizonte.

Sissy contou um pouco sobre sua trajetória de vida e militância, das lutas que enfrentou por ser transexual e soropositiva quando precisou de acolhimento institucional. “Quando cheguei a Belo Horizonte estava com esperança de encontrar uma instituição para que pudesse ficar, então, fui para o albergue Tia Branca, lá recebi uma roupa masculina e fui ao banheiro para tomar banho e me trocar, onde um homem aproximou-se de mim e disse ‘uma bicha, velha e aidética’, após isso eu juntei minhas malas e por quatro vezes vivi em situação de rua, minha mala era minha casa”, relatou Sissi Kelly.

Casa Transvest – As adversidades enfrentadas por Sissy fizeram com que ela continuasse na militância e relata como conquista recente a Casa Transvest, criada pela ONG de mesmo nome, na última terça, 11, em Belo Horizonte.

A conselheira Dalcira Ferrão relata que a Casa Transvest recebeu seis pessoas em situação de rua e já atingiu lotação máxima. A ação é iniciativa de sociedade civil e conta com apoio de doações para sua manutenção e permanência. “É a sociedade apresentando resposta para questões que o poder público ainda se omite e não tem atuado”, afirmou.

Sissy alerta que as ONGs são organizações instáveis, que dependem de doação para existir e que por isso podem fechar as portas a qualquer momento. Ela enfatizou a necessidade de políticas públicas voltadas para todas as mulheres em situação de rua, respeitando suas identidades e subjetividades.

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